
LIA LORA (*)
Quero aqui lembrar a figura de uma pessoa ímpar de nossa Caculé, pela sua beleza, pelo seu comportamento sui generes, que fez e fará parte em todos os tempos da historia da nossa cidade: LIA LORA.
Nunca ninguém soube seu nome verdadeiro, nem sua idade.
Sendo nossa vizinha, a conheci desde criança, com uma característica marcante - a vaidade. Vaidade essa que ela mantém até os dias atuais, quando com esmero, cuida das suas madeixas sempre loiras e a eterna pastinha impecável; olhos e sobrancelhas sempre bem delineados com cryon; uma pele de bebê mais suavizada com pó compacto, sem falar de uma pinta em seu rosto realçada como o mesmo lápis.
Estando na janela, não dispensava o uso de um lenço de seda colorido para compor seu visual.
Nunca abriu mão dos bobies, para avolumar sua cabeleira, e realçar ainda mais os seus lindos olhos azuis.
Bonita, traços finos, visíveis ainda nos dias atuais.
Dentro de uma saia rodada cheia de anáguas, vez por outra, ela nos presenteava com um desfile pela Av Dr. Antonio Muniz e adjacências, por alguma razão especial. Toda garbosa, sorridente, preocupada em parecer impecável aos olhos de quem a assistia passar. Ajustava a cada segundo, aqui e acolá, algum detalhe da indumentária que lhe incomodasse. Não podia fazer feio, afinal era na época a moça mais cobiçada pelos rapazes, particularmente pelos viajantes, que por aqui passavam, suprindo o comércio local, muito comuns na época.
Levava uma vida recatada, sem muitos amigos, mas amiga de todos. Debruçada em sua janela, hábito que ainda persiste, assiste a vida passar, e se mantém bem informada das novidades mais frescas da cidade.
A única festa que no passado lhe tirava do casulo, era o carnaval; sua preferida e única. Nos carnavais, ela se destacava com sua brilhante presença. Se produzia com esmero, e muita animação, rumo ao Clube Social, para se esbaldar ao som das marchinhas ecoadas pelas bandinhas de fanfarra, (Ó jardineira por que está tão triste, mais o que foi que te aconteceu....) soltando seus gritinhos de intensa euforia.
Muito tempo depois, Lia restringiu suas saídas. Sempre acompanhada por alguém de sua confiança, ela passou a sair apenas pra ir ao dentista ou por ocasião das eleições, para cumprir o seu dever cívico. Hoje, Lia, sozinha, fato que parece não aborrecê-la, continua "bem informada", conversando com transeuntes que sempre lhe vêem trazendo novidades.
Fiel aos seus hábitos e costumes, continua na janela, assistindo a vida passar.
Embalada pelos seus sonhos e fantasias distribuindo os mesmos sorrisos, ela continua ali, impecável mas totalmente alheia as novas tecnologias e modernidades. Lia embora de família simples, tem porte de princesa, e como princesa aqui lhe rendo a minha homenagem cheia de carinho e respeito.
(*) Texto de Neide Aquino, mãe, e foto de Fabíola, filha.

